Seu Armando, choveu em Belford Roxo
Por Glória Delazari, Cerrado 21/05/2025 23h00

Quando chove em Belford Roxo, o problema não é a chuva e sim o descaso (Foto: Imagem criada por inteligência artificial)
Há alguns dias simplesmente me deparei com um vídeo no TikTok onde uma influenciadora reproduz o áudio de um trabalhador que mora em Belford Roxo. O conteúdo foi tão natural que me “debulhei” de rir imaginando a reação do Seu Armando (patrão) escutando o áudio do seu funcionário que não sabemos o nome, mas que agora chamaremos de “Mario”.
“Seu Armando, eu tô desde às 05:45 da manhã mandando foto, vídeo no seu privado, Seu Armando, mostrando a minha real situação do porquê não fui trabalhar hoje. O senhor conhece Belford Roxo quando chove, Seu Armando? Aí você vai no grupo e fala pra todo mundo ouvir que eu sou um funcionário preguiçoso que tenho medo de pegar chuvinha, vai tomar no c..., Seu Armando, chuvinha é o caral..., choveu pra caral... aqui em Belford Roxo... Eu não vou sair de Belford Roxo pra encher saco de farinha na chuva não”.
É, acho que o Seu Armando não esperava por essa. Não citei o áudio completo por ser muito extenso e porque o “Mario” faz um desabafo cheio de palavrões, mas se eu fosse você pesquisaria o vídeo na plataforma para ter o mesmo prazer que eu tive ao ouvir esse áudio pela primeira vez.
Apesar da comicidade em imaginar a situação e a reação do patrão, me coloco no lugar do “Mario” e dos milhões de trabalhadores que passam por situações semelhantes.
Imagina você, trabalhador brasileiro, que atua em alguma função braçal e menos remunerada, e que muito provavelmente também trabalha de segunda a sábado ou a semana toda, ser exposto ao ridículo e ser chamado de funcionário preguiçoso, apesar de ter enviado todas as provas que justificam a sua ausência para o seu chefe. Quantos de nós, já não passamos por situações parecidas, onde o temporal causou o maior trânsito e não conseguimos ir ou chegar ao trabalho?
Eu poderia citar não apenas o temporal, mas também os problemas habituais no transporte público, questões de saúde que nos impedem de ir ao trabalho, situações com familiares e vários outros imprevistos.
Bem, depois da experiência em ouvir o áudio do “Mario” eu pude concluir duas coisas: a primeira que eu não queria estar na pele do Seu Armando e a segunda que deveríamos ser mais “Mario”, talvez, não com tantos palavrões, mas sim com a sua coragem ao impor o seu valor e direitos como trabalhador, seja em Belford Roxo, em São Paulo ou em qualquer lugar do nosso Brasil.
